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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O soneto 105

Soneto 105

Não chame o meu amor de Idolatria 

Nem de Ídolo realce a quem eu amo, 
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo. 
É hoje e sempre o meu amor galante, 
Inalterável, em grande excelência; 
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença. 
'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo; 
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento; 
E em tal mudança está tudo o que primo, 
Em um, três temas, de amplo movimento. 
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora; 
Num mesmo ser vivem juntos agora.

Quis fazer uma pequena crónica sobre um soneto, procurei lestamente um poema de amor, encontrei em Shakespeare o tríptico :"Beleza, Bem, Verdade"; sós outrora, num mesmo ser vivem agora. Este poema remete-me para a observação de Saramago sobre as palavras - O Homem Duplicado. Diz o autor, que as palavras vazias nos tornam vazios. Se não damos conteúdo àquilo que dizemos, ficamos sem conteúdo. Somos poços sem água, se nos livrarmos dos significantes. Compreendo, por isso repito um amor sem significado é idolatria, é um prazer feito de magia e um sofrimento feito de ilusão. 

Devemos proclamar a beleza, produzir o bem, e sublinhar a verdade. Há aqui uma ética que me faz pensar nos limites das nossas acções: imaginemos um mentiroso, este poderá ser um perigoso defeito, pois se mentir pode ser útil em muitas situações, ao mesmo tempo, pode ser um grande obstáculo noutras. Mentir à família e aos que estão próximos produz um único resultado: ostracismo. Roubar, o mesmo. Pode um ladrão roubar um estranho, mas ninguém se aproxima a alguém que está disposto a furtar os seus bens. É possível haver uma circunscrição: e geralmente a há. Um assassínio pode ser um pai e marido extremoso. Um mentiroso pode ser verdadeiro para os amigos e família. Um ladrão pode ser generoso aos seus. Cria-se enfim uma linha que separa a idolatria dos verdadeiros sentimentos. 

Que outra coisa é a falsidade, ou o mal, se não uma idolatria pelo domínio das coisas? Uma sujeição do mundo aos nossos subjectivos preceitos? Se alguém mente é porque quer dominar a natureza das coisas, ou desviar os percursos naturais das coisas. Todavia, nós se queremos amor - e queremos amar - não pode haver grandes truques para alcançar este sentimento. Podemos ser amados com a mentira, mas amar é impossível mentindo. 



quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sobre o corpo

O corpo é uma entidade exterior ao verdadeiro "eu", ou o "eu" e o nosso corpo somos uma mesma coisa, feitos da mesma substância, portanto indissociáveis? Quanto à matéria, excluindo a hipótese de termos uma alma, o corpo é composto pela mesma matéria da matéria da consciência - é o mesmo substracto com diferentes funções. Parece-me indiscutível este ponto, a base bioquímica é a mesma. Somos seres feitos de moléculas e átomos similares entre diferentes indivíduos, e o mesmo acontece entre um mesmo organismo: mente e corpo são feitos dos mesmos componentes. 

Assim, sobra as consequências deste dilema:

"Eu acho o problema aqui são as consequências da catalogação do corpo: as implicações éticas e morais são diferentes nas duas concepções de corpo. Se o corpo é propriedade nossa, podemos, por exemplo, vender um órgão ou prostituir o mesmo, dado que somos donos do mesmo; em suma, o corpo é um objecto independente do nosso verdadeiro "eu". Se o corpo somos nós, e é uma entidade indissociável de nós, então, eticamente, parece, pelo menos, errado vender um órgão ou vender o corpo para o sexo venal. Afinal, é o nosso "eu" que ali está a ser comercializado ou a ser usado. 

sábado, 18 de janeiro de 2014

Independente(s)




O termo "independente" ganhou uma estranha conotação: pessoa ligada à política, porém não afecta à militância de um partido. A estranheza advém da natureza de um sistema democrático representativo. O parlamento numa democracia é preenchido por cores partidárias, sendo os deputados apontados pelos partidos, ou seja, sujeitos a uma disciplina partidária, não representando directamente os cidadãos. A representação é indirecta: os eleitores votam directamente nos partidos, por sua vez, os partidos escolhem os seus representantes. Dito isto, o termo independente ganha valor acrescido. O independente é escolhido não pela obediência a um partido, mas sim pelo seu valor na sociedade. Isto é, pelo menos, aquilo que está implícito na acepção que temos do termo. 

Daqui surgem dois problemas: primeiro, fica diminuído o valor do militante; segundo, fica a ideia que os partidos não funcionam internamente de forma clara e objectiva, oferecendo "lugares" sem que isto tenha correspondência ao mérito do escolhido. Os partidos perdem valor dando lugar a independentes, pois isto corresponde a assumir que o seu funcionamento interno é suspeito ou ineficaz.
Eu não tenho nada contra o termo "independente". Eu próprio não sou militante de um partido. Todavia, sou obrigado a dizer que é virtualmente impossível corresponder a minha independência àquele sentido que o termo tomou. É fácil explicar a razão: todo e qualquer projecto político não é feito no singular, mas no plural. Por outro lado, sou afecto a um corpo de princípios, valores e crenças que condicionam - naturalmente - as minhas posições políticas. Sou, inclusive, obrigado a dizer que poderei agir politicamente em outros tipos de associações políticas que não as partidárias - associações, sindicatos, movimentos, etc. 
Daqui, lanço a questão se não devemos repensar o que é independência no actual sistema político? Será proveitosa esta forma de fazer política? Fará sentido aceitarmos que "independentes" ocupem cargos de nomeação partidária (como é o caso dos deputados)?

Eu fiz parte

Fui um leitor ávido do Coluna Infame. Faço parte deste trecho da história.

"Pela sua qualidade e originalidade, merece destaque o blogue «Coluna Infame», projecto de 2002-2003 de Pedro Mexia, Pedro Lomba e João Pereira Coutinho, muito influenciado na sua génese pelos acontecimentos do 11 de Setembro, que haviam dado lugar a uma obra marcante para a intelectualidade de direita, o livro de Fernando Gil e Paulo Tunhas, Impasses. Seguido de coisas vistas, coisas ouvidas (2003). Todos eles, até por razões que precederam ou acompanharam a sua presença no «A Coluna Infame», conquistaram um lugar de destaque na esfera pública, ainda que percorrendo caminhos diversos. Pedro Lomba escreveria no Público, Pedro Mexia no Expresso, João Pereira Coutinho no Correio da Manhã e, com grande êxito, naFolha de S. Paulo. Todos tiveram presença marcante na blogosfera, mas afirmam agora as suas posições noutros lugares, como a imprensa escrita ou a televisão. E todos eles tinham e têm, a par da componente estritamente política, uma marcadíssima aproximação de natureza cultural, sendo patente a sua reverência por Nelson Rodrigues, Philip Larkin, Evelyn Waugh, a pop inglesa ou o cinema independente. A partir desse encontro, cada qual seguiu o seu caminho: Pedro Lomba e João Pereira Coutinho mais ligados às universidades, Pedro Mexia mais próximo dos meios literários do que académicos, todos rejeitaram a atracção do tribalismo e, ao invés, cultivaram um estrito individualismo, pessoal e intelectual."

Fonte: Malomil
Autor: António Araújo 

Último Parágrafo: Crime e Castigo


A estátua e o barro

"Quando temos uma estátua de barro na mão, estamos de facto a segurar dois objectos físicos: uma estátua e um pedaço de barro. Pois se partirmos a estátua, esta é destruída, mas o pedaço de barro continua a existir."

Fonte:  
Enigmas da Existência: Uma Visita Guiada à Metafísica, de Earl Conee e Theodore Sider

Singular e enigmático, a forma como isto se aplica a duas coisas profundamente antagónicas: o amor e o poder.  

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

2 Citações: Público 16-01-2014

"Há dias feios feios. Olha-se para o céu e não há céu. Vai-se ao mar e o mar está sujo e a areia está barrenta. Passeia-se e não se vê nada. O nevoeiro tapa as vistas. Sobressaem só as cores mais vivas dos prédios mais grotescos. É um alívio. A beleza também cansa. Faz bem tirar umas férias dela."

Miguel Esteves Cardoso

"Num tempo em que o espaço público está dominado pela contraposição entre duas ortodoxias de sinal contrário." 

Francisco Assis

Nota: é sempre bom encontrar algo que subscrevo por inteiro, é uma brisa de civilização que nos sopra brandamente a face.

António Ferreira 

A banalidade do bem?


Houve um momento que questionei um velhote sobre duas virtudes: a bondade e honestidade. Diz-me o ancião que há virtudes que são tão inerentes aos homens como as pestanas. Respondi que não percebi o que ele queria dizer com aquilo, ele dissolve as palavras obtusas e dá uma explicação: "Eu sei que há pessoas que se orgulham de ter pernas, pestanas ou braços. Todavia, se fores a ver bem quase todos nós temos pernas, pestanas ou braços. Quase todos nós recebemos já no ventre materno pernas, pestanas ou braços. O mesmo acontece com a bondade e a honestidade. Há quem encare as virtudes como algo excepcional, mas todos nós temos virtudes. Da mesma forma que um desportista sabe usar melhor as pernas do que tu, há pessoas que sabem usar melhor as suas virtudes que outras." Eu quis continuar o diálogo e disse: "E se não forem virtudes?" Ele replicou: "Infelizmente, é a mesma conversa."

Costuma-se dizer "em terra de cego quem tem olho é rei." Eu gostava de parafrasear este ditado, mas fico-me só pela primeira parte: em terra de aldrabões... Confesso a minha limitação — o que é preciso para ser rei numa terra de aldrabões?

Digo isto a título de provocação, ainda no outro dia ouvi um senhor orgulhoso dizer que na sua vida nunca recorreu a uma cunha para arranjar um tacho para os filhos. No momento em que este senhor diz-me isto, não pensei muito no assunto. Mas dias depois, um amigo lembra-me que não procurar cunhas não pode ser motivo de orgulho. Aliás, fazer a coisa correcta não deve ser motivo de orgulho. Concordo com a lógica do meu amigo, mas pergunto-me: se não valorizamos as virtudes não corremos o risco de banalizar qualidades determinantes para a sociedade?

Este dilema é complexo, nós temos inerentemente desconfiança da ética. Principalmente, porque a ética é exigente. Eu próprio penso no assunto: e se eu precisar de um favor? E se tiver de socorrer-me de uma cunha? Não é que alguma vez eu tenha tido uma cunha ou um favor, mas será que devo fechar definitivamente todas as portas e janelas de oportunidades. Será que exigir atitudes e comportamentos dentro de uma ética restrita — para não mencionar que é aborrecido — não pode ser demasiado confrangedor e constrangedor?

Nós precisamos da ética, na política e no meio empresarial. A economia sem ética não é só selvagem e desigual. A economia sem ética, estagna. Mas os problemas com a ética começam em nós próprios, tornando os problemas sociais e económicos que enfrentamos num verdadeiro ciclo vicioso.

Reuters


António Ferreira