Não chame o meu amor de Idolatria
Nem de Ídolo realce a quem eu amo,
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo.
É hoje e sempre o meu amor galante,
Inalterável, em grande excelência;
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença.
'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo;
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento;
E em tal mudança está tudo o que primo,
Em um, três temas, de amplo movimento.
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora;
Num mesmo ser vivem juntos agora.
Quis fazer uma pequena crónica sobre um soneto, procurei lestamente um poema de amor, encontrei em Shakespeare o tríptico :"Beleza, Bem, Verdade"; sós outrora, num mesmo ser vivem agora. Este poema remete-me para a observação de Saramago sobre as palavras - O Homem Duplicado. Diz o autor, que as palavras vazias nos tornam vazios. Se não damos conteúdo àquilo que dizemos, ficamos sem conteúdo. Somos poços sem água, se nos livrarmos dos significantes. Compreendo, por isso repito um amor sem significado é idolatria, é um prazer feito de magia e um sofrimento feito de ilusão.
Devemos proclamar a beleza, produzir o bem, e sublinhar a verdade. Há aqui uma ética que me faz pensar nos limites das nossas acções: imaginemos um mentiroso, este poderá ser um perigoso defeito, pois se mentir pode ser útil em muitas situações, ao mesmo tempo, pode ser um grande obstáculo noutras. Mentir à família e aos que estão próximos produz um único resultado: ostracismo. Roubar, o mesmo. Pode um ladrão roubar um estranho, mas ninguém se aproxima a alguém que está disposto a furtar os seus bens. É possível haver uma circunscrição: e geralmente a há. Um assassínio pode ser um pai e marido extremoso. Um mentiroso pode ser verdadeiro para os amigos e família. Um ladrão pode ser generoso aos seus. Cria-se enfim uma linha que separa a idolatria dos verdadeiros sentimentos.
Que outra coisa é a falsidade, ou o mal, se não uma idolatria pelo domínio das coisas? Uma sujeição do mundo aos nossos subjectivos preceitos? Se alguém mente é porque quer dominar a natureza das coisas, ou desviar os percursos naturais das coisas. Todavia, nós se queremos amor - e queremos amar - não pode haver grandes truques para alcançar este sentimento. Podemos ser amados com a mentira, mas amar é impossível mentindo.
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