quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Fortuna Literária

'Segunda parte de las republicas del mundo' - Jerónimo Roman y Zamora (1575)
Censurado pela Inquisição Espanhola em 1585
Comprava livros compulsivamente. Havia entranhado a profunda crença de que lê-los-ia a todos antes de se finar.

Deus, que manifestava uma atroz indiferença pela vida humana, seria incapaz de cometer a infâmia de deixar um livro órfão de leitor. – Sabia-o e a comprová-lo estava o facto d’Este ter equipado todos os humanos com um par de olhos. Uma ponderada redundância para quem votaria a humanidade a uma prolongada negligência, não fossem os frágeis seres estragarem metade de si.

E então, qual toxicómano, comprava para obter uma dose de satisfação que o fizesse sentir vivo. Porém, não roubava! A educação católica que recebera como espartilho, condicionava o seu comportamento numa intrincada rede de fronteiras éticas e abismos morais. Trabalhava e comprava. Trabalhava desalmadamente para sustentar financeiramente o seu vício. Não por acreditar ser detentor de uma alma cuja dação constituísse um tributo a conceder num absoluto acto de lealdade. Pretendia esvaziar-se de tal fardo espiritual, diligenciando a conjecturada libertação pelo labor, e abrindo em si espaço ao conhecimento literário que acumulava em espécie.

Meticuloso na escolha, despendia horas incontáveis a lutar contra o canto de sereia dos títulos, o apelativo ludibriar do grafismo das capas e as citações reverentes que ostentavam. Mergulhava nas sinopses, nas contracapas e nos índices e tinha os autores como amigos secretos com quem privava em conversas idílicas que lhe ocupavam quotidianamente os serões. Acumulou um universo de amigos que lhe habitavam permanentemente o lar arrumando-se, como em beliches, contra as paredes da casa. Vezes sem conta, dormia entre poetas, jantava com novelistas, banhava-se sob o olhar de romancistas e partilhava um charuto e um brandy com dramaturgos.

Sempre cumpriu as funções de censor que lhe haviam sido acometidas pela chefia, seguindo escrupulosamente as suas directrizes de lápis azul em riste. Nunca se refez da desilusão profissional quando, numa florida madrugada aprilina, prescreveram-lhe uma reforma compulsiva. Após um curriculum de 900 trabalhos elogiosamente concluídos, sentiu-se traído pelo destino por lhe ter tolhido o caminho da imortalidade, ao privar-lhe o sustento do seu vício. Dilacerado, continuou a exercer o único ofício que conhecia. Por conta própria e no seu próprio lar.

Pereceu a trabalhar.
Executou todos os seus amigos.
Nunca leu um livro na vida.

by Miguel Silva Gouveia

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