quinta-feira, 26 de junho de 2014

As instituições do passado não são boas por serem antigas, mas são antigas por serem boas*

O que significa, para mim, ser conservador no Séc. XXI?
Não há uma resposta simples, óbvia a inequívoca a esta pergunta. Vamos a alguns pontos prévios.
As ideologias são espectros dos quais quase todos nós partilhamos. Alguns mais do que outros e nalguns casos mais do que noutros. Porque todas as ideologias têm premissas (chamemos-lhes assim) universais que ninguém recusará e porque todas elas padecerão de vícios que dificilmente serão aceites por todos. Ora, eu, como qualquer outro, também perfilho várias ideias de outras doutrinas ideológicas, não me considerando, de todo, um conservador “puro”.
Por outro lado, não estão traçados com rigor os limites de cada uma das ideologias. Onde termina o Comunismo e começa o Socialismo? Qual a fronteira entre o Socialismo e a Social-Democracia? Mais, as próprias ideologias também não são imutáveis: vão-se ajustando aos contextos sociais, culturais, económicos, geográficos, temporais e políticos. Mantendo premissas-base, as ideologias hoje não são iguais ao que eram há 20 ou 30 anos.
Feito este esclarecimento prévio, há um ponto de partida inicial para qualquer conservador: a transformação social deve ser feita de forma gradual, suportada na tradição e nos conhecimentos acumulados, em observância pelas diferentes idiossincrasias de cada povo (conforme nos foi proposto por Edmund Burke). O progresso social (diferente de inovação, porquanto esta não é automaticamente positiva) é feito de forma cumulativa e não disruptiva. E se é bom adquirir, conforme nos ensinou Goethe, melhor será conservar, pelo que a atitude conservadora é uma atitude de prudência.
Um conservador não acredita em fórmulas ideais ou universais de organização social que salvem a humanidade, nem em mudanças ou inovações que qualifiquem necessariamente e de forma radical a vida quotidiana. Pelo contrário, deve cada comunidade definir a sua própria organização, de acordo com as suas estruturas tradicionais, ainda que recebendo e valorizando os contributos da contemporaneidade que se revelem efetivamente positivos para a qualidade de vida das pessoas. Deste ponto de vista, o conservadorismo faz a apologia da família e da comunidade (entre outras estruturas tradicionais) como forma de combate quer ao individualismo (cristalizado pelo Estado liberal) quer ao coletivismo (ou igualitarismo universal, que anula a individualidade), afirmando-se como legítimo fundador do princípio da subsidiariedade que assumiu especial relevância no personalismo. Isto é, para o conservador, o centro de decisão deve estar tão perto das pessoas quanto possível. E aqui entramos naquilo que é a minha posição conservadora: ser conservador é, para mim, alguém que assume que no centro das decisões políticas está a pessoa humana e a sua dignidade inalienável, conforme descrita por Mounier e que seguiu em paralelo com a Doutrina Social da Igreja, inaugurada pela encíclica "Rerum Novarum”.
Se é meritório este posicionamento? Poderemos discutir. Mas teremos de conhecer um pouco mais, para que as nossas opiniões sejam mesmo melhor informadas.

*Máxima do Tradicionalismo

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Reforma administrativa da Madeira

Ponto de ordem: lanço este tema aqui no Tubo porque gostaria que o debatêssemos, não como mero exercício intelectual, mas porque me parece que será, não apenas necessário mas até benéfico para as finanças regionais e para a qualidade do serviço prestado.

A Região (RAM) vai entrar, em breve (já começou, aliás) num novo ciclo político e económico, fruto do desenvolvimento excecional e inquestionável dos últimos anos, da dívida entretanto acumulada e das mudanças político-partidárias, essencialmente dentro do PSD-M (o desgaste de Jardim e o aparecimento de candidaturas e tendências até há pouco quase inexpressivas).
É um tempo de desassossego entusiasmante pois estou em crer que esta nova etapa poderá imprimir novas dinâmicas que projetem a Madeira para um novo futuro.
Inevitavelmente, muitos paradigmas terão de ser alterados: o modelo de desenvolvimento; as necessidades sociais e a prática política são algumas das áreas em que nos salta à vista que mudanças são indispensáveis. Acho, contudo, a exemplo da maior parte dos partidos e até de alguns candidatos à liderança do PSD-M, como o Sérgio Marques, por exemplo, que devemos aproveitar para fazer alterações ao sistema político. E é neste contexto que acho que temos de começar a pensar seriamente numa reforma administrativa do nosso território, especialmente ao nível do poder local.
Neste momento, o nosso mapa autárquico é constituído por 11 municípios e 54 freguesias. A minha questão está dividida em três: a população madeirense necessita mesmo desta quantidade de autarquias? Justificam os recursos que consomem? É possível reduzir o número de autarquias sem quebras na qualidade do serviço?
Vamos a factos: as autarquias madeirenses, apenas ao nível dos municípios (sem contar com funcionários das juntas de freguesia) têm cerca de 3250 (eram 3257 em 2010) funcionários. O que representa uma média de 14 funcionários por cada mil habitantes (existem casos em que temos 30/1000). Em termos comparativos, este valor é o dobro do que existe em Sintra, Cascais ou Gaia. É certo que estamos a comparar com áreas densamente povoadas (nos municípios rurais o rácio é sempre maior) e ainda estamos longe dos 93/1000 do Corvo. Contudo, parece-me que podemos descer este rácio sem que isso tenha impactos negativos na vida das pessoas. Até porque muitas das competências que no continente estão adstritas às autarquias, na Região são asseguradas pelo Governo Regional.
Por outro lado, esta quantidade de autarquias implica um investimento grande com pessoal político: entre vereadores com pelouro, senhas de presença para todos os eleitos e assessorias políticas (chefes de gabinete, secretários e adjuntos), estou em crer que temos investimento anual superior a um milhão de Euros. Não será daqui que resolveremos o problema da dívida, mas para além da poupança óbvia, atenuaríamos o impacto que todos estes comissários políticos têm no quotidiano madeirense, quer das instituições, quer dos cidadãos (essa influência política é grande e nefasta, como todos sabemos). Por mais que não fosse, isto, só por si, já justificaria a reflexão séria.
Não me entendam mal, não sou apologista de despedimentos: mas com uma reforma bem feita seria possível centralizar serviços, dispensando recursos humanos e técnicos para outras áreas. E a médio prazo, estou em crer, recorrendo apenas às reformas, seria possível reduzir o número de funcionários, se não para metade, pelo menos para cerca de 2.000, o que implicaria uma grande poupança ao erário público.

Contudo, para a efetivação desta reforma, teríamos de olhar para o que foi feito no continente e fazer tudo ao contrário. Estive na Dinamarca em 2009, onde vi uma reforma do poder local bem feita, concertada entre eleitos e população, com discussão pública e atenção às idiossincrasias de cada local e das populações. Obviamente, seria um modelo deste género que defendo para a região.
Vamos, contudo, ao mais excitante e, admito, ao mais polémico: que reforma faria eu?
Pois bem, não vou opinar sobre freguesias, mas tenho uma estrutura municipal na cabeça que gostaria de partilhar convosco. Por mim, mantinha o Funchal, Câmara de Lobos e Vila Baleira. Agregava Ribeira Brava, Ponta de Sol e Calheta, num único município; Machico e Santa Cruz num outro e Santana, São Vicente e Porto Moniz num terceiro, reduzindo para 6 o número de municípios. Acho esta agregação equilibrada, que respeita uma certa continuidade territorial e cultural, e com a garantia de proximidade à população.
Gostaria, contudo, de ouvir as vossas opiniões.

Vamos lá ao debate.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sobre o dia da mulher

Sobre a bondade do Dia da Mulher, assisti o desfilar de diversas razões para a sua existência e outras tantas a defenderem a sua extinção. Algumas válidas, outras nem por isso. De um lado e de outro. Digo desde já: não tenho opinião definitiva sobre o assunto.
Para mim, aceito como válidas: assinalar a memória daquel@s que lutaram em prol da igualdade; reflexão sobre as desigualdade que ainda persistem. Por outro lado, também acho que o dia caiu numa vulgarização absoluta e que, pelo menos nas democracias do mundo ocidental, não existem assim tantas razões para manter o dia, não se constituindo como um dia de discriminação positiva.
Quero, contudo, focar-me nos argumentos, que vi muito disseminados, em que para justificar este dia, metem tudo o que são problemas sociais ao barulho. Ele é para assinalar o número de mulheres desempregadas, ele é para assinalar as questões relacionadas com a parentalidade; ele é para as questões de violência de género, ele é para a sensibilização para os números vergonhosos da violência doméstica, a prostituição, o tráfico de seres humanos, enfim…. E isto tudo como se no centro destes problemas estivesse a mulher. Não está! No centro destes problemas está a Pessoa. Por isso, parece-me manifestamente abusivo e até pouco sério.
Contudo, reconheço a necessidade de promover a sensibilização para os problemas das mulheres e até acho que faria sentido um dia para assinalar os problemas de género. Por isso deixo a questão aos meus amigos tubianos: não faria mais sentido e até mais atual, assinalar um dia, por exemplo, da Consciência de Género? Ou, se quisermos meter tudo ao barulho, um Dia da Consciência para a Não discriminação? Ou, ainda mais lato, um Dia da Consciência da Pessoa?
A mim parece-me que faria mais sentido (a primeira hipótese não desvirtua o Dia da Mulher, naquilo que tem de válido e permite, efetivamente, alargar o espectro)

Deixo à vossa consideração.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A cidade e o espaço urbano são coincidentes? (ou cogitações avulsas)

A cidade e o espaço urbano são coincidentes?
Segundo Henri Lefebvre, no seu «O direito à cidade», não. Por cidade, entende o espaço físico e por urbano entende o intangível, a potência. Podem convergir, criando o "espaço público", mas não são coincidentes.
Bauman descrevia-os como o mundo sólido vs mundo líquido, coexistindo no espaço público.
Sinceramente, cada vez mais me convenço que cidade e espaço urbano não apenas não são coincidentes como estão, progressivamente a afastar-se. Cada vez mais os cidadãos têm menos direito à cidade, menos capacidade de intervenção sobre ela, havendo, de forma aparentemente paradoxal, naturais e desejáveis movimentos de (re)apropriação do espaço urbano, por parte daqueles que habitam a cidade. Explicito: hoje, o destino das cidades é mais decidido nos centros nefrálgicos do poder económico, por parte de atores que não habitam a cidade e menos por aqueles que as cruzam diariamente. Quando o CEO de uma grande empresa toma, a partir de, por exemplo, Nova Iorque, a decisão de investir numa cidade de província portuguesa, está a transformar esse espaço de forma mais determinante do que qualquer habitante desse território. Entretanto, os habitantes dessas cidades mobilizam-se, de forma cada vez mais crescente e organizada, para dinamizar o espaço urbano, como um espaço de partilha, diálogo e convivência. O crescimento dos mecanismos de participação são disso exemplo.

Vem tudo isto a propósito de uma reflexão que tenho vindo a realizar sobre a real importância das nossas decisões individuais para o espaço público, bem como a capacidade real de intervenção do poder político no planeamento das cidades. Sim, é verdade que as ferramentas, aparentemente, estão nas mãos dos decisores políticos. Contudo, também sabemos que o seu ordenamento legal, os próprios instrumentos, são definidos por estruturas não apenas supraurbanas mas até subranacionais. E assim sendo, quem habita a cidade tem cada vez menos influência sobre o seu futuro. Resta-nos zelar pelo espaço urbano e garantir a urbanização (no sentido que lhe deu Lefebvre ) da cidade.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Coragem de Ser Livre

A campainha tocou. Ele cessou todo o movimento. A sua vontade era ser inexistente, nunca saia de casa. Tinha tudo lá dentro: uma passadeira, um computador ligado à internet, comida e água. Ficava o dia todo a ler, dando compasso a algum exercício físico e tempo para alimentar-se. Lia furiosamente, artigos, jornais, livros. Ouvia música para descansar o "córtex frontal". Era a mãe que enviava o dinheiro por transferência, os bens alimentares eram comprados online e o senhor do serviço de entregas deixava os bens à porta antes de partir sem que o cliente o visse. 

Seria ele? O nosso herói, de facto, tinha feito uma encomenda. É muito possível que fosse, pois a campainha só tocou uma vez. Ele deslocou-se à porta para observar o único vislumbre do mundo exterior que tinha. Não estava nada do outro lado, os sacos com a fruta, os bifes e os legumes deveriam estar no chão. Ele abre a porta cuidadosamente. Que tragédia! O tipo do supermercado não deixou os sacos encostados à porta. Estavam no outro lado do corredor, o que implicava o eremita  ser obrigado a sair da casa para ir buscá-los. Ele assim fez. No preciso momento em que o fazia, aproximou-se uma vizinha de cabelos negros, olhos avelã. 

Trocaram olhares de solidão. Ele sentiu que nada da sua reclusão fazia sentido. Não apaixonou-se por ela, como à partida poderia supor-se. Simplesmente, viu nos olhos dela uma flâmula de liberdade. Foi o que bastou para ter a coragem de ser livre. 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

OP

Notas do seguinte link:
72 questões


Quais são as dimensões do OP? 

O Orçamento Participativo é um processo multidimensional: 1. Dimensão orçamental/financeira 2. Dimensão participativa (1. e 2. são dimensões base do processo) 3. Dimensão normativa e jurídico-legal 4. Dimensão espacial/territorial 5. Dimensão política/governação

Quais as condições básicas necessárias para implementar um OP num município?

Existem vários pré-requisitos para a implementação de um Orçamento Participativo. O primeiro é a vontade política do Presidente da Câmara e demais decisores no âmbito do município. É necessário, portanto, existir a vontade política necessária para sustentar toda a dinâmica participativa. A manifestação mais visível dessa vontade deve ocorrer na fase da implementação do processo, aquando da concretização dos compromissos sobre investimentos tangíveis. O segundo é a presença e interesse das organizações da sociedade civil e dos cidadãos em geral. Esta condição é decisiva para a sustentabilidade do próprio processo. O terceiro é uma definição clara e partilhada das regras do jogo. Estas regras referem-se aos montantes que irão a debate, às fases do processo, aos períodos de execução das decisões, às regras para a tomada de decisão (e, no caso de não haver acordo, à responsabilidade e à autoridade que cada actor assume no âmbito do processo de tomada de decisão), ao método para delegar responsabilidade, autoridade e recursos entre as diferentes unidades territoriais do processo, bem como à composição do Conselho do Orçamento Participativo. A decisão sobre estas regras não pode ser alcançada de forma unilateral. Ela compreende a ampla participação da população e a sua definição está aberta a constantes ajustes, a cada ciclo, com base nos resultados e no funcionamento do processo. O quarto pré-requisito é a vontade para promover a capacitação da população e das autoridades municipais sobre o orçamento público, em geral, bem como sobre o Orçamento Participativo, em particular. Isto pressupõe fornecer explicações sobre montantes, fontes de financiamento e sobre o sistema de despesas vigente. É importante também esclarecer quais as áreas de despesa pública que são da responsabilidade do município e as que não dependem das autoridades locais. Um quinto pré-requisito é a ampla divulgação da informação, que deve ser feita de todas as formas possíveis. Assim, a população deve ser informada sobre as datas e locais das reuniões, bem como sobre as regras do jogo a implementar. Finalmente, o sexto pré-requisito é a priorização das reivindicações feita pela população, a qual se relaciona com critérios técnicos que incluem uma análise das falhas existentes em termos de infra-estruturas e serviços públicos. Isto é importante para facilitar uma distribuição mais justa dos recursos.

Quais são os princípios básicos do OP? 

Os princípios fundamentais assentam na adopção da democracia participativa enquanto modelo político e enquanto estratégia de boa governação12. Se esses princípios forem considerados universais, cada cidade ou país convertê-los-á em meios práticos capazes de reflectir as suas necessidades e o contexto local. Como ilustração, seguem os 8 princípios norteadores (resumidos) da Lei do Orçamento Participativo no Peru. • Participação • Transparência • Igualdade • Tolerância • Eficiência e eficácia • Imparcialidade • Competitividade • Respeito pelo que for acordado A co-gestão dos recursos públicos oferece uma outra dimensão a estes princípios.

Como se põe em prática um OP? 

Não existe uma receita universal para começar um Orçamento Participativo. Depende muito do contexto em que se pretende implementar o processo. O primeiro passo que se sugere é fazer uma análise da situação (ou diagnóstico) para avaliar o grau de respeito pelos princípios essenciais e se os pré-requisitos são atendidos. Essa análise pode variar, em termos de conteúdo, de uma cidade para outra.

 Um segundo passo passa por criar, também de forma participada, um mapa (ou avaliação) dos actores locais interessados no processo e aqueles que poderiam opor-se à sua implementação. Um terceiro passo consiste numa análise clara e numa definição, por parte do governo, do valor e da origem dos recursos que seriam submetidos à consideração no processo de Orçamento Participativo, bem como dos recursos necessários para que o município o implemente. Sobre este aspecto, recomenda-se que o município faça uma análise da relação custo/benefício da iniciativa. O próximo passo assenta na criação de alianças e na abertura ao diálogo com o objectivo de conquistar mais adeptos para a ideia e aumentar a sua legitimidade no município. Os elementos chave, neste sentido, passariam por:

- • Dialogar com os principais representantes da sociedade civil • Procurar o envolvimento inicial dos membros do Conselho do OP eleitos O quinto passo é o desenho dos regulamentos internos do Orçamento Participativo, que definem as regras do jogo para o primeiro ano. É importante levar em conta os seguintes princípios operacionais: • Participação universal: Todos os cidadãos podem participar, independentemente da sua condição sócio-económica, embora os grupos organizados tenham um papel importante no processo. Na verdade, torna-se necessário pensar, de forma intencional, estratégias para envolver sectores da população que não estejam a exercer os seus direitos de cidadania. • Transparência do Orçamento: Tanto ao nível das receitas como das despesas. • Flexibilidade: O processo deve ser suficientemente flexível de forma a permitir uma avaliação e ajustes contínuos. • Objectividade: Devem ser usados critérios objectivos e explícitos no âmbito da alocação dos recursos visando, assim, a credibilidade do processo. • Ênfase na questão do género: Participação igualitária, entre homens e mulheres, no processo. A este propósito, é importante, sempre que possível, desagregar os dados sobre o orçamento e sobre os impactos dos investimentos em função da variável género. • Foco pluri-cultural e multi-étnico: Assegurar uma discriminação positiva e a adopção de acções afirmativas que assegurem a participação e o poder de tomar decisões de grupos populacionais excluídos (por exemplo, grupos indígenas).Estabelecer um acordo com o governo Destaque 12: O Ciclo de OP em Porto Alegre de 2004 Fonte: Prefeitura de Porto Alegre, 2004. do governo, do valor e da origem dos recursos que seriam submetidos à consideração no processo de Orçamento Participativo, bem como dos recursos necessários para que o município o implemente. Sobre este aspecto, recomenda-se que o município faça uma análise da relação custo/benefício da iniciativa. O próximo passo assenta na criação de alianças e na abertura ao diálogo com o objectivo de conquistar mais adeptos para a ideia e aumentar a sua legitimidade no município. Os elementos chave, neste sentido, passariam por:- • Dialogar com os principais representantes da sociedade civil • Procurar o envolvimento inicial dos membros do Conselho do OP eleitos O quinto passo é o desenho dos regulamentos internos do Orçamento Participativo, que definem as regras do jogo para o primeiro ano. É importante levar em conta os seguintes princípios operacionais: • Participação universal: Todos os cidadãos podem participar, independentemente da sua condição sócio-económica, embora os grupos organizados tenham um papel importante no processo. Na verdade, torna-se necessário pensar, de forma intencional, estratégias para envolver sectores da população que não estejam a exercer os seus direitos de cidadania. • Transparência do Orçamento: Tanto ao nível das receitas como das despesas. • Flexibilidade: O processo deve ser suficientemente flexível de forma a permitir uma avaliação e ajustes contínuos. • Objectividade: Devem ser usados critérios objectivos e explícitos no âmbito da alocação dos recursos visando, assim, a credibilidade do processo. • Ênfase na questão do género: Participação igualitária, entre homens e mulheres, no processo. A este propósito, é importante, sempre que possível, desagregar os dados sobre o orçamento e sobre os impactos dos investimentos em função da variável género. • Foco pluri-cultural e multi-étnico: Assegurar uma discriminação positiva e a adopção de acções afirmativas que assegurem a participação e o poder de tomar decisões de grupos populacionais excluídos (por exemplo, grupos indígenas).


Seguem em baixo as fases principais do processo. 

O ciclo de discussão, negociação e elaboração do Orçamento Participativo leva um ano e normalmente é composto pelas seguintes fases (especialmente nas grandes cidades): • 

Assembleias Locais (paróquia, bairro, distrito, etc.) e Sectoriais 

Nestas assembleias o presidente da câmara apresenta os empreendimentos construídos/actividades realizadas que antes não existiam, bem como o plano de investimentos e as Regras do Processo de Orçamento Participativo. Os delegados locais e sectoriais (por temática e/ou por questões específicas) do Orçamento Participativo são eleitos (ou designados) com base em critérios previamente estabelecidos. • 

Reuniões locais e sectoriais (opcionais) 

São encontros entre os delegados(as) e as comunidades que representam. Estas reuniões podem acontecer sem a presença das autoridades, se os delegados assim entenderem. Nestas reuniões os participantes decidem quais os projectos prioritários a executar. Na Europa, e em várias cidades da América Latina, é necessário envolver o governo local, pelo menos em algumas das assembleias, dado a sociedade civil não estar organizada ou não estar preparada para realizar esta fase por conta própria. A discussão nas assembleias deve ser complementada com discussões regulares entre os delegados, sobre regiões, sobre questões específicas e sobre a cidade como um todo, sobretudo, porque a qualidade dos debates em algumas assembleias é baixa. Este exercício torna-se necessário para que o Orçamento Participativo não se limite a um plebiscito ou a uma forma de populismo. • 

Câmara Municipal 

Enquadra-se a este nível a entrega oficial ao Presidente da Câmara, pelo Comité do OP, da lista de projectos prioritários definidos pela população. É neste evento que os membros do Comité do Orçamento Participativo são efectivamente instalados. 

Desenho da Matriz Orçamental

O município e o Comité do Orçamento Participativo desenham a matriz orçamental. Estes são momentos essenciais e constituem-se como sendo dos mais controversos no âmbito do processo. O Plano de Investimento é criado, partilhado com a população e, de seguida, publicado para efeitos de monitorização e cumprimento do que foi acordado. 

• Avaliação do processo 

Uma vez concluído o ciclo, as Regras do Processo do OP são avaliadas e ajustadas geralmente pelos delegados e/ou conselheiros eleitos do OP, e com os responsáveis municipais do OP. As novas Regras serão usadas no ano seguinte. Existe um segundo ciclo, usualmente designado como Ciclo de Implementação, que começa no ano seguinte (Ver destaque 17, O Ciclo do Orçamento Participativo em Belo Horizonte: do planeamento à execução de obras e serviços públicos)15.  Durante este ciclo, que começa com estudos técnicos e termina com a inauguração dos projectos aprovados, as autoridades locais, os cidadãos e, geralmente, as comissões específicas de monitorização do processo continuam a interagir.




UP DOIS, ESQUERDA, DIREITA....

nos últimos dias aconteceram coisas por aqui que me lembraram a minha mãe. pessoa de esquerda assumida nela tipificavam conceitos e posturas características desse posicionamento político. não quero aqui fazer análise política profunda. quero falar de uma coisa que a esquerda mais tradicional e tradicionalista tem e que muito a caracteriza (para além da mania de andar de régua na mão a medir o esquerdismo ou o direitismo das questões e das pessoas). a esquerda, ou parte dela, desculpa tudo à esquerda. nunca erra, ou se o faz admite-o com a soberba de quem se acha superior. o erro é condimento, é assim a modos que uma pimenta muito ligeira que quase nunca se nota.
podem cometer-se as maiores enormidades, que isso tem pouco importância... a esquerda desculpa!
a minha mãe era assim... se era de esquerda era bom... se era de direita era mau. como eu sou de direita imaginem-se as discussões. acabavam sempre com cada um na sua. mas não foram poucas as vezes o que o argumento ouvido lhe ficava a saltitar na cabeça e dias depois lá vinha: "tens que me explicar melhor aquilo do "não sei quê""...
iam-lhe ao bolso. se o governo era de esquerda é que tinha que ser, se de direita era roubo descarado!
professora que era se a direita mexia na educação caia o Carmo e a Trindade se era a esquerda é que tinha que ser!
qualquer coisa que a direita fizesse ao nível da cultura era um desastre... o nada que a esquerda foi fazendo era porque somos um país pequenino!
o interessante em tudo isto é o facto de ter sido esta mesma pessoa que me deu todas as ferramentas para possa hoje pensar as coisas. não me deu uns "óculos" de esquerda ou de direita nem uns que fizessem a destrinça automáticamente. deu-me a leitura, a arte, a música, ensinou-me a aproveitar todos os sentidos e a tirar deles partido.
no meio das nossas discussões (e são tantas as saudades) tantas vezes lhe chamava a atenção para esta contradição e a resposta era invariavelmente a mesma e sob a forma de um ditado. piscava-me o olho e dizia:
"faz o que eu digo e não faças o que eu faço!"

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O livro que se intromete

Eu leio livros de forma mais ou menos organizada. Crio uma lista, estabeleço um plano. Este mês vou ler A e B. No mês seguinte, C. Os períodos de tempo são definidos pela dimensão do livro, sendo esta mensurada pela espessura física e profundidade mental. 

Porém, há livros que se intrometem nesta ordem imaginada. Há uma palavra para isto: serendipidade. É um prazer criado pelo impulso do momento. Podemos chamar isto o Factor Humano que quer arrasar convenções e criar um novo princípio mais fluído. Já agora, o livro que refiro chama-se Factor Humano. É de Graham Greene. 




terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Michio Kaku

O Sr. Kaku é um físico teórico, mentor de várias teses cientificas, de âmbito abrangente pois tem a tendência para abordar temas como Deus ou o futuro da humanidade. Estou a ler o mais recente dele: Física do Futuro. 

Fiquei a saber, logo nas primeiras páginas, algumas das engenhocas tecnologicamente evoluídas do nosso tempo: óculos ligados à internet que, através de um diodo emissor de luz, envia luz directamente à retina, ou carros sem condutor. 

O autor aposta no fascínio pela tecnologia, manifestando o seu exponencial historial. Ele diz que a "computação omnipresente" será uma realidade, sem apontar um único inconveniente. Ele fala das "vozes desencarnadas" dos detratores iniciais do telefone, e depois diz que a tecnologia levanta a "névoa da guerra" tornando esta muito mais eficaz (!). Ou seja, não tem em consideração os factores sociais, psicológicos e até emocionais que poderão ter impacto nas nossas vidas. 

Eu respeito a Lei de Moore com alguma apreensão, se os computadores podem duplicar a sua capacidade a cada 18 meses, é preciso lembrar que nós evoluímos por milhares de anos, e não meses. 

Sei que Kaku tem resposta para isto: a fusão da matéria com a mente. Em todo o caso, alertar para termos cuidado não ficaria mal numa análise da Física do futuro. 

Nota: ainda não acabei o livro. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A importância da história para a sociedade

O ensino de história nos faz conhecer uma realidade que nos permite reproduzir transformações pelas quais a sociedade esta se passando. A formação social é fundamentada na história de cada povo o tempo histórico passado e presente são essenciais para compreender a formação estrutural de cada civilização.
O discurso do ensino de história nos direciona a memória das grandes sociedades que se passaram, e tinham alguns modelos eficazes para se estruturarem socialmente. Não cabe ao presente ser semelhante ao passado, mas conhecer sua história por completo e compreendê-la em sua formação social, política, econômica e cultural. O conhecimento do passado influencia no presente tendo uma noção do futuro tendo uma perspectiva social histórica. O formador do discurso do ensino de história é o detentor do banco de memória do passado única fonte de pesquisas e práticas os detentores deste conhecimento tem como papel principal revelar que com a história pode-se mudar e transformar um sistema social dominante por completo.
Não cabe ao historiador dominar o tempo e sim conhecendo e dominando a história presente que passa por varias mudanças de uma geração a outra de maneira que para ter um bom domínio da história presente o historiador jamais deverá ser negligente em relação à história. O discurso no presente não é para propor um modelo exato das condições políticas e sociais, mas compreender entender como deve ser os desenvolvimentos, processos de pensamentos na formação do discurso crítico. 
O estudo de história deve esta na formação de cada cidadão desenvolvendo seu conhecimento transformando-o em um cidadão capaz de formar seus próprios conceitos ideológicos. A educação do homem se faz necessário com um bom conhecimento da história temporal que o torna parte fundamental interferindo nos valores dominantes da sociedade. A escola é a principal formadora de conhecimento implantado no homem onde sua amplitude de ensino esta nos diversos espaços educacionais que capacitará o homem como ser pensante, principal fonte de reprodução do conhecimento da história que transmitirá o conhecimento e valores sociais que viabilizarão a legitimação do conhecimento em todos os espaços. Está na educação à importância de ensinar história, à escola como fornecedora do conhecimento tem a responsabilidade de formar o cidadão um agente duplo ao mesmo tempo ensinando e aprendendo como uma sociedade deve se portar diante de sua própria história.
Nos espaços de formação e reprodução do cidadão uma sociedade moderna em desenvolvimento tem-se a necessidade de aprender sua própria história como ela deve ser contada, ensinada como ela pode interferir no sistema político. Fazer da história algo importante para sociedade é necessário em alguns casos fugir as regras impostas pelo sistema educacional brasileiro. A socialização do cidadão em uma sociedade brasileira faz do aluno uma parte na construção histórica de um povo que tem conhecimento onde estes são utilizados em diferentes meios sociais para incorporar na vida do cidadão elementos tornando-o um sujeito ativo e pensante.
As sociedades estão em constantes mudanças sejam elas nos espaços políticos, culturais e sociais a historiografia tem como objetivo levar cada pessoa a observar em cada contexto histórico acontecimentos isolados que a sociedade vive a negligenciar. Os preceitos colocados nos espaços de formação abrangem todas as esferas da educação sejam nas escolas como nas famílias que se preocupam em dar ênfase aos grandes personagens históricos não permitindo novas maneiras de estudar uma nova história com conteúdos selecionados e ricos modificando o tradicionalismo imposto.
Não se pode deixar de lado o que não pode ser esquecido quando na verdade a história tem a sua importância e pode influenciar nas grandes questões que envolvem desigualdades sociais, econômicos, políticos etc. na verdade uma nação não existe sem sua própria história seja ela boa ou má da mesma forma que uma sociedade ao negligenciar sua história esta renegando sua própria identidade seu passado. Podemos observar que as grandes civilizações têm grandes histórias a serem lembradas e relembradas século após séculos. 
O conhecimento histórico é fundamental em cada nação, sociedade no momento atual passamos por uma grande crise de identidade onde os valores não são lembrados importantes fatos não observados com a devida importância. O certo é que uma sociedade que não se identifica com sua própria história não tem conhecimento de se mesmo. Nas escolas brasileiras o problema é bem mais amplo a disciplina de história não é vista como algo de fundamental importância para a educação de um futuro cidadão onde a prova esta nas matrizes curriculares a disciplina de história tem uma grande redução sendo superadas por outras na verdade todas as disciplinas deveriam seguir um mesmo principio. A função da história é nos tornar atentos aos acontecimentos analisa-los e termos uma noção do que esta se passando. Uma nação cuja história não é valorizada e dada o seu devido valor esta sujeita a se perder no tempo.
(Lelas da Silva Santana, acadêmico de História pela Unifan, guarda civil metropolitano de Goiânia. E-mail lelascarcara@hotmail.com; www.facebook.com/lorlelas.santana)

In http://www.dm.com.br/texto/137696 

Miséria humana

Para quem leva a sua vidinha, pacata, com maior ou menor dificuldades, com crise ou sem crise, lá vai seguindo o seu dia a dia, completamente alheio a uma dura realidade que se esconde na Madeira Nova, que o betão Jardinista não foi capaz de apagar.

É preciso andar no terreno, nas ruas, nos becos e nas veredas para tomarmos a consciência da pobreza  que envergonhadamente se esconde, às vezes num adro de igreja, outras escondidas numa casa no meio de um bananal.

Há tempos atrás escrevi aqui, que o atraso madeirense do passado, tão empolado pelos nossos governantes de modo a fazer crescer um falso desenvolvimento, não passava de um mero instrumento comparativo com o continente, elevando o regime cá da terra, sempre com o intuito de mostrar o que é saber crescer!

Mas que crescimento tivemos?
Estradas, centros cívicos, escolas onde já não existem alunos, túneis e mais túneis, seguidos de pontes e mais túneis! São necessários? Sim, muitos deles sim, muitos fundamentais para encurtar distâncias enormes, quando queríamos ir mesmo ali ao lado, outros dão-nos segurança. Outros, e não são assim tão poucos, completamente desnecessários. Furar a rocha e encher de betão, encher os bolsos de quem vende betão.

E o outro crescimento?
O crescimento civilizacional, o crescimento cultural, o crescimento educacional. Onde está esse crescimento?
Investimentos em desporto! Onde estão os nossos campeões? Temos um Ronaldo, obrigado Ronaldo pelas alegrias que nós proporcionas. Mas é Ronaldo um produto da terra? Tem um talento natural, ninguém dúvida disso, mas onde estava a Madeira Nova quando teve de precocemente sair da sua terra para crescer como desportista, como pessoa e como ser humano? Certamente não foi por causa das verbas gastas no desporto regional. Mas novamente pergunto, para onde foi esse investimento? Novamente para o betão, para o futebol profissional, com atores de outras bandas!

Olhamos para as nossas escolas e pergunto novamente, onde estão os nossos grandes pensadores? Onde estão os nossos grandes cientistas? Os grandes poetas? Criaram-se escolas por toda a região, quando as distâncias ficaram mais curtas, e aqueles que antes saíam da sua zona de conforto, alargavam horizontes, o campo de visão passava a ser outro. Novamente, gastamos, mas não estudamos, não soubemos ver qual é o nosso objectivo, não quantificamos as necessidades, não percebemos qual o nosso caminho a percorrer.

E nesta Madeira Nova, que tanto cresceu, que é das regiões mais desenvolvidas de Portugal, e é no Funchal, onde essa grande sabedoria e crescimento empola o resto da ilha, que ainda vivem pessoas em condições da mais dura das misérias humanas! Pessoas que não sabem o que é um interruptor de luz em casa. O petróleo (aquele cor de rosa) é um grande sinal dos tempos modernos, e banho de água quente, é só esperar pelo verão, quando a mangueira que rega a horta aquece ao sol e proporciona uns litros de água morna!

E é está a Madeira nova!

Fonte: Madeira do Avesso

Duarte Caldeira Ferreira 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Discursos: by all means necessary

Este é um discurso decisivo na história da América. Não é um discurso pacífico, pois é esgrimido o argumento que os afro-americanos podem, de acordo com a Constituição, pegar em armas para defender-se de uma turba racista e violenta. Malcom X não se inibe em dizer: devemos utilizar todos os meios necessários para conquistar os nosso direitos. Não é uma apologia da violência, é uma apologia de uma luta que a todos os níveis pode ser necessária, apesar de muito perigosa. Malcom X foi assassinado.  




o mio babbino caro



Fortuna Literária

'Segunda parte de las republicas del mundo' - Jerónimo Roman y Zamora (1575)
Censurado pela Inquisição Espanhola em 1585
Comprava livros compulsivamente. Havia entranhado a profunda crença de que lê-los-ia a todos antes de se finar.

Deus, que manifestava uma atroz indiferença pela vida humana, seria incapaz de cometer a infâmia de deixar um livro órfão de leitor. – Sabia-o e a comprová-lo estava o facto d’Este ter equipado todos os humanos com um par de olhos. Uma ponderada redundância para quem votaria a humanidade a uma prolongada negligência, não fossem os frágeis seres estragarem metade de si.

E então, qual toxicómano, comprava para obter uma dose de satisfação que o fizesse sentir vivo. Porém, não roubava! A educação católica que recebera como espartilho, condicionava o seu comportamento numa intrincada rede de fronteiras éticas e abismos morais. Trabalhava e comprava. Trabalhava desalmadamente para sustentar financeiramente o seu vício. Não por acreditar ser detentor de uma alma cuja dação constituísse um tributo a conceder num absoluto acto de lealdade. Pretendia esvaziar-se de tal fardo espiritual, diligenciando a conjecturada libertação pelo labor, e abrindo em si espaço ao conhecimento literário que acumulava em espécie.

Meticuloso na escolha, despendia horas incontáveis a lutar contra o canto de sereia dos títulos, o apelativo ludibriar do grafismo das capas e as citações reverentes que ostentavam. Mergulhava nas sinopses, nas contracapas e nos índices e tinha os autores como amigos secretos com quem privava em conversas idílicas que lhe ocupavam quotidianamente os serões. Acumulou um universo de amigos que lhe habitavam permanentemente o lar arrumando-se, como em beliches, contra as paredes da casa. Vezes sem conta, dormia entre poetas, jantava com novelistas, banhava-se sob o olhar de romancistas e partilhava um charuto e um brandy com dramaturgos.

Sempre cumpriu as funções de censor que lhe haviam sido acometidas pela chefia, seguindo escrupulosamente as suas directrizes de lápis azul em riste. Nunca se refez da desilusão profissional quando, numa florida madrugada aprilina, prescreveram-lhe uma reforma compulsiva. Após um curriculum de 900 trabalhos elogiosamente concluídos, sentiu-se traído pelo destino por lhe ter tolhido o caminho da imortalidade, ao privar-lhe o sustento do seu vício. Dilacerado, continuou a exercer o único ofício que conhecia. Por conta própria e no seu próprio lar.

Pereceu a trabalhar.
Executou todos os seus amigos.
Nunca leu um livro na vida.

by Miguel Silva Gouveia

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O soneto 105

Soneto 105

Não chame o meu amor de Idolatria 

Nem de Ídolo realce a quem eu amo, 
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo. 
É hoje e sempre o meu amor galante, 
Inalterável, em grande excelência; 
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença. 
'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo; 
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento; 
E em tal mudança está tudo o que primo, 
Em um, três temas, de amplo movimento. 
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora; 
Num mesmo ser vivem juntos agora.

Quis fazer uma pequena crónica sobre um soneto, procurei lestamente um poema de amor, encontrei em Shakespeare o tríptico :"Beleza, Bem, Verdade"; sós outrora, num mesmo ser vivem agora. Este poema remete-me para a observação de Saramago sobre as palavras - O Homem Duplicado. Diz o autor, que as palavras vazias nos tornam vazios. Se não damos conteúdo àquilo que dizemos, ficamos sem conteúdo. Somos poços sem água, se nos livrarmos dos significantes. Compreendo, por isso repito um amor sem significado é idolatria, é um prazer feito de magia e um sofrimento feito de ilusão. 

Devemos proclamar a beleza, produzir o bem, e sublinhar a verdade. Há aqui uma ética que me faz pensar nos limites das nossas acções: imaginemos um mentiroso, este poderá ser um perigoso defeito, pois se mentir pode ser útil em muitas situações, ao mesmo tempo, pode ser um grande obstáculo noutras. Mentir à família e aos que estão próximos produz um único resultado: ostracismo. Roubar, o mesmo. Pode um ladrão roubar um estranho, mas ninguém se aproxima a alguém que está disposto a furtar os seus bens. É possível haver uma circunscrição: e geralmente a há. Um assassínio pode ser um pai e marido extremoso. Um mentiroso pode ser verdadeiro para os amigos e família. Um ladrão pode ser generoso aos seus. Cria-se enfim uma linha que separa a idolatria dos verdadeiros sentimentos. 

Que outra coisa é a falsidade, ou o mal, se não uma idolatria pelo domínio das coisas? Uma sujeição do mundo aos nossos subjectivos preceitos? Se alguém mente é porque quer dominar a natureza das coisas, ou desviar os percursos naturais das coisas. Todavia, nós se queremos amor - e queremos amar - não pode haver grandes truques para alcançar este sentimento. Podemos ser amados com a mentira, mas amar é impossível mentindo. 



quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sobre o corpo

O corpo é uma entidade exterior ao verdadeiro "eu", ou o "eu" e o nosso corpo somos uma mesma coisa, feitos da mesma substância, portanto indissociáveis? Quanto à matéria, excluindo a hipótese de termos uma alma, o corpo é composto pela mesma matéria da matéria da consciência - é o mesmo substracto com diferentes funções. Parece-me indiscutível este ponto, a base bioquímica é a mesma. Somos seres feitos de moléculas e átomos similares entre diferentes indivíduos, e o mesmo acontece entre um mesmo organismo: mente e corpo são feitos dos mesmos componentes. 

Assim, sobra as consequências deste dilema:

"Eu acho o problema aqui são as consequências da catalogação do corpo: as implicações éticas e morais são diferentes nas duas concepções de corpo. Se o corpo é propriedade nossa, podemos, por exemplo, vender um órgão ou prostituir o mesmo, dado que somos donos do mesmo; em suma, o corpo é um objecto independente do nosso verdadeiro "eu". Se o corpo somos nós, e é uma entidade indissociável de nós, então, eticamente, parece, pelo menos, errado vender um órgão ou vender o corpo para o sexo venal. Afinal, é o nosso "eu" que ali está a ser comercializado ou a ser usado. 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Governo sexista

O editorial do Público de hoje deu de caras com um exemplo linguístico sexista.

"Ora não é isso que sucede nos textos dos próprios planos governamentais, quando o género feminino aparece não em pé de igualdade gráfica mas entre parênteses. Ou seja, em lugar de lermos “conselheiro/a”, lemos “conselheiro(a)”. Sendo que o parênteses remete para uma indicação acessória, enquanto a barra sugere uma representação simétrica."

Jesus e Sócrates

Uma vez li de George Steiner - Paixão Intacta - que os judeus só podiam invejar duas figuras: Jesus e Sócrates. Jesus é fácil perceber. Sócrates, nem por isso. Entretanto, li a Apologia de Sócrates. Consegui assim, atingir uma neblina de compreensão. 

Tenhamos em atenção, alguns trechos da Apologia:

Sócrates tem amor aos seus concidadãos. 

"Ora, pois, cidadãos atenienses, estou bem longe de me defender por amor a mim mesmo, como alguém poderia supor, mas por amor a vós, para que, condenando-me, não tenhais de cometer o erro de repelir o dom de mim que vos fez o Deus. Pois que, se me mandares matar, não encontrareis facilmente outro igual, que (pode parecer ridículo dizê-lo) tenha sido adaptado pelo Deus à cidade, do mesmo modo como a um cavalo grande e de pura raça, mas um pouco lerdo pela sua gordura, é aplicada a necessária esporada para sacudi-lo." 

Bem-aventuramos aqueles que transportam o bem. O perdão. 

"Mas também vós, ó juízes, deveis ter boa esperança em relação à morte, e considerar esta única verdade: que não é possível haver algum mal para um homem de bem, nem durante a vida, nem depois da morte, e que os Deuses não se interessam do que a ele concerne; e que, por isso mesmo, o que hoje aconteceu, no que a mim concerne, não é devido ao acaso, mas é a prova de que para mim era melhor morrer agora e ser libertado das coisas deste mundo. Eis também a razão porque a divina voz não me dissuadiu, e porque, de minha parte, não estou zangado com aqueles cujos votos me condenaram, nem contra meus acusadores."

O final. 

"É a hora de irmos: eu para a morte, vós para as vossas vidas; quem terá a melhor sorte? Só os Deuses sabem." 




Democracia Polarizada

O caso da coadopção e o respectivo referendo fez-me lembrar o facto de que as democracias estão a tornar apelativos os extremos. O fenómeno não é novo, mesmo assim, impossível é não sentir estranheza. Quais são as causas do protagonismo destes cantos de sereia?

Eu não tenho uma hipótese com provas. As minhas evidências derivam da intuição. E o que é que esta diz? A política está a perder a sua força. Digamos o que é força: é a capacidade de tomar decisões efectivas, fazer cumprir a lei e ter o poder de sujeitar o venal perante o interesse comum. As democracias podem perder a sua força, porque o que é decidido pelo processo democrático é irrelevante. Vejamos os tratados europeus que nunca foram referendados. Por fim, na nossa história, a primeira república abriu portas - pela sua confusão e indisciplina - ao estado novo. Será que estas portas estão sendo abertas, novamente? 

Sobre cultura e gosto


Uma pedrada no charco do politicamente correto!


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Rolão Preto

Publiquei isto em tempo no meu blogue e acho que aqui também fica bem...

..."a verdade, quando impedida de marchar, refugia-se no coração dos homens e vai ganhando em profundidade o que parece perder em superfície... Um dia, essa verdade obscura, sobe das profundidades onde se exilara e surge tão forte claridade, que rasga as trevas do Mundo"

Rolão Preto in Inquietação


Já aqui dei a entender que considero Rolão Preto um dos mais interessantes personagens do séc. XX português. Um pensador e homem de liberdade conotado com o regime saído do 28 de Maio de 1926 e que rejeita a transposição da ditadura (que queria efémera até que o país pudesse voltar a um modelo de democracia monárquica) para um regime de tipologia fascista.
A máxima notoriedade de Rolão Preto viria a dar-se na sequência do lançamento do «Movimento Nacional-Sindicalista» (MNS), em Fevereiro de 1932, através do qual foi desafiado o Salazarismo emergente. Sob a direcção de Rolão Preto e Alberto de Monsaraz, aquele movimento de massas veio a abalar profundamente o País. Consegue imprimir ao nacional-sindicalismo uma liderança fortemente carismática, mobilizando grande número de jovens das Academias.
Em entrevista à United Press, não deixou de vincar a sua distinta matriz doutrinária, enunciando uma clara demarcação ideológica: o Fascismo de Mussolini e o Nacional-Socialismo de Hitler, eram "totalitarismos divinizadores do Estado cesarista", ao contrário do Nacional-Sindicalismo, que filiava a sua doutrina nas tradições cristãs de Portugal.
O autoritarismo de Salazar veio a revelar-se bem mais próximo do fascismo, mostrando-se aliás em melhores condições para atrair e manter as juventudes influenciadas pelos estatismos modernistas em voga. Em Novembro de 1933, com as actividades do «Movimento Nacional-Sindicalista» entretanto proibidas, foi Salazar quem logrou captar para o seio do regime parte significativa das juventudes que o Nacional-Sindicalismo que, por breves momentos, conseguira mobilizar. A cisão no seio do Nacional-Sindicalismo deu-se precisamente quando Alberto de Monsaraz e Rolão Preto resolveram impugnar abertamente o modelo de Regime Corporativo de Partido Único - tipicamente fascista -, defendendo a independência do Movimento que dirigiam. Em Junho de 1934, uma representação ao Presidente da República voltou a colocar o problema. Entre outras reivindicações, uma vez mais se preconizava a constituição de um Governo nacional com a participação de todas as tendências políticas. O regime Salazarista, alicerçado no modelo fascista do Partido Único, porém, estava já completamente senhor da situação, acabando Rolão Preto por ser preso e expulso para Espanha. Pouco depois, uma nota oficiosa do Governo ainda insistia em convidar os Nacional-Sindicalistas a ingressar na União Nacional, ficando o Movimento, uma vez mais, totalmente proibido.
Veio a reentrar em Portugal em Fevereiro do ano seguinte, com o intuito de reorganizar e relançar o Nacional-Sindicalismo mas, em Setembro, o Governo deu Rolão Preto como implicado num frustrado movimento revolucionário contra o regime ("golpe Mendes Norton"). Rolão Preto parte novamente para o exílio.
Após a segunda Grande Guerra, Rolão Preto veio a retomar intervenção política através do apoio ao Movimento de Unidade Democrática (MUD). Tomou parte no comité de candidatura à presidência da República do Almirante Quintão Meireles e, nas eleições de 1958 integrou a candidatura do General Humberto Delgado, assumindo a chefia dos Serviços de Imprensa, escrevendo vários discursos da Candidatura e parte do respectivo Programa Político.
Em 1970, com outras personalidades monárquicas, constitui a Biblioteca do Pensamento Político, Convergência Monárquica, organização a favor da monarquia que tenta reunir o Movimento Popular Monárquico chefiado por Gonçalo Ribeiro Teles, uma fracção da Liga Popular Monárquica de João Vaz de Serra e Moura e a Renovação Portuguesa de Henrique Barrilaro Ruas.

Nas eleições de 1969, as primeiras eleições durante o período de governo de Marcelo Caetano, participa na lista da Comissão Eleitoral Monárquica.
Após o golpe militar de 25 de Abril de 1974 assume a Presidência do Directório e do Congresso do Partido Popular Monárquico (PPM), fundado em 23 de Maio.
Morre em Lisboa a 18 de Dezembro de 1977.

É condecorado por Mário Soares (enquanto Presidente da República), em 10 de Fevereiro de 1994, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, a título póstumo, pelo seu «entranhado amor pela liberdade».

Bibliografia de Rolão Preto

* A Monarquia é a Restauração da Inteligência, Lisboa, 1920
* Para Além do Comunismo, Coimbra, 1932
* Orgânica do Movimento Nacional Sindicalista, Lisboa, 1933
* Salazar e a Sua Época: Comentário às Entrevistas do Actual Chefe do Governo com o Jornalista António Ferro, Lisboa, 1933
* Justiça!, Lisboa, 1936 "Política da Personalidade" - contra o fascismo e os totalitarismos
* O Fascismo, Guimarães, 1939
* Em Frente! Discurso pronunciado pelo Dr. Rolão Preto no banquete dos intelectuais nacionalistas, Castelo Branco, 1942
* Para Além da Guerra, Lisboa, 1942
* A Traição Burguesa, Lisboa, 1945
* Inquietação, Lisboa, 1963;
* Carta aberta ao Doutor Marcello Caetano, Lisboa, 1972.

Wake Up - Arcade Fire



Wake Up

Somethin' filled up
my heart with nothin',
someone told me not to cry.

But now that I'm older,
my heart's colder,
and I can see that it's a lie.

Children wake up,
hold your mistake up,
before they turn the summer into dust.

If the children don't grow up,
our bodies get bigger but our hearts get torn up.
We're just a million little god's causin rain storms turnin' every good thing to rust.

I guess we'll just have to adjust.

With my lighnin' bolts a glowin'
I can see where I am goin' to be
when the reaper he reaches and touches my hand.

With my lighnin' bolts a glowin'
I can see where I am goin'
With my lighnin' bolts a glowin'
I can see where I am go-goin'

You better look out below!

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Project Syndicate I

O Robert Skidelsky lança uma curiosa ideia: as nossas vantagens competitivas são "mensuradas" estritamente em termos monetários e isto pode distorcer a forma como "medimos" a utilidade do tempo que dedicamos aos amigos, família, ou a nós próprios. Claro, que sempre que falamos em "vantagens competitivas" isto conduz-nos imediatamente para o comércio livre e a globalização. Esta última só faz sentido, tendo presente a "lógica" da tese das vantagens competitivas. O criador desta teoria, Paul Samuelson, já veio dizer que as coisas não são bem assim, já que a China pode absorver todas as vantagens relacionadas com a competição entre países só porque os salários praticados no império do meio são irrisórios. 

Ler: Project Syndicate: Free Trade and Costly Love

Sobre o valor dos independentes na política.

Questionaram-me sobre a importância dos independentes na vida política regional e nacional. Ora, pois bem, sou favorável à participação de qualquer cidadão na vida política. Acho, até, que devem ser feitas algumas revisões legislativas ao sistema político português com vista à facilitação do acesso dos cidadãos aos órgãos de decisão política, sem que isso tenha obrigatoriamente de passar pelos partidos.
Não vejo qualquer problema na participação de independentes na vida política, por via dos partidos. Mas se não vejo problema, também não vejo grandes benefícios, uma vez que as pessoas, quando se aproximam dos partidos, estão a comprometer-se com essas estruturas, com a sua ideologia, com a sua organização e com a sua agenda. O mesmo, aliás, que fazem os militantes. E assim é que deve ser.
Mais, acho que a maioria dos partidos acena com os independentes para mostrar a sua alegada superioridade relativamente aos demais, como se ser independente (isto é, não ter cartão) com atividade partidária fosse mais virtuoso do que ser militante. Parece-me, inclusive, que esta atitude diminui a condição de militante.
Por outro lado, considero que é uma tentativa de iludir os eleitores uma vez que apresenta como independente alguém que está comprometido.

E já nem sequer vou à análise dos independentes e das suas motivações. Ser independente, num partido, pode ser confortável, pois beneficia-se da estrutura sem estar sujeito às suas regras. Por outro lado, há também aqueles mercenários políticos, dispostos a candidatar-se por um qualquer partido que lhes dês guarida. 

Resumindo, nada tenho contra a participação de independentes das vidas políticas dos partidos. Mas também não vejo qualquer mais-valia nisso (a não ser uma meramente instrumental e populista).

O que gostaria é que os partidos, em vez de abrir as suas portas a independentes, propusessem a abertura das portas do sistema político nacional à participação de cidadãos e estruturas apartidárias. Esse é que seria o grande contributo dos partidos para a participação.

Sobre mitos ou pseudoargumentos em favor da adoção por parte de homossexuais.


Muitos defensores da medida trazem à liça, como argumento, o facto das crianças estarem melhor em lares do que em instituições de acolhimento. Por princípio, concordo (ainda que considere que a resposta para este problema está na melhoria das condições das instituições), mas este argumento vem infetado de um erro: parte do pressuposto de que há mais crianças à espera de ser adotadas do que casais interessados em adotar.
Fui informar-me: no dia 17 de janeiro de 2014, existiam em Portugal 492 crianças, com idades compreendidas entre os 0 e os 15 anos, à espera para serem adotadas. Estão inscritos na Segurança Social, para adotar, 1877 casais. Ou seja, para cada criança, há 3 casais interessados.

Mesmo reconhecendo que existem várias variantes (casais sem condições efetivas para adotar - por diversos motivos; crianças com deficiências - que a maior parte dos casais não está interessada; crianças de etnias diferentes; a idade das crianças, etc.), com isto, apenas quero demonstrar que há muitos mitos que não correspondem à verdade. E se se quer discutir isto a sério, temos de depurar o debate destas falsas verdades.

3 notas: Sebastião José








sábado, 18 de janeiro de 2014

Independente(s)




O termo "independente" ganhou uma estranha conotação: pessoa ligada à política, porém não afecta à militância de um partido. A estranheza advém da natureza de um sistema democrático representativo. O parlamento numa democracia é preenchido por cores partidárias, sendo os deputados apontados pelos partidos, ou seja, sujeitos a uma disciplina partidária, não representando directamente os cidadãos. A representação é indirecta: os eleitores votam directamente nos partidos, por sua vez, os partidos escolhem os seus representantes. Dito isto, o termo independente ganha valor acrescido. O independente é escolhido não pela obediência a um partido, mas sim pelo seu valor na sociedade. Isto é, pelo menos, aquilo que está implícito na acepção que temos do termo. 

Daqui surgem dois problemas: primeiro, fica diminuído o valor do militante; segundo, fica a ideia que os partidos não funcionam internamente de forma clara e objectiva, oferecendo "lugares" sem que isto tenha correspondência ao mérito do escolhido. Os partidos perdem valor dando lugar a independentes, pois isto corresponde a assumir que o seu funcionamento interno é suspeito ou ineficaz.
Eu não tenho nada contra o termo "independente". Eu próprio não sou militante de um partido. Todavia, sou obrigado a dizer que é virtualmente impossível corresponder a minha independência àquele sentido que o termo tomou. É fácil explicar a razão: todo e qualquer projecto político não é feito no singular, mas no plural. Por outro lado, sou afecto a um corpo de princípios, valores e crenças que condicionam - naturalmente - as minhas posições políticas. Sou, inclusive, obrigado a dizer que poderei agir politicamente em outros tipos de associações políticas que não as partidárias - associações, sindicatos, movimentos, etc. 
Daqui, lanço a questão se não devemos repensar o que é independência no actual sistema político? Será proveitosa esta forma de fazer política? Fará sentido aceitarmos que "independentes" ocupem cargos de nomeação partidária (como é o caso dos deputados)?

Eu fiz parte

Fui um leitor ávido do Coluna Infame. Faço parte deste trecho da história.

"Pela sua qualidade e originalidade, merece destaque o blogue «Coluna Infame», projecto de 2002-2003 de Pedro Mexia, Pedro Lomba e João Pereira Coutinho, muito influenciado na sua génese pelos acontecimentos do 11 de Setembro, que haviam dado lugar a uma obra marcante para a intelectualidade de direita, o livro de Fernando Gil e Paulo Tunhas, Impasses. Seguido de coisas vistas, coisas ouvidas (2003). Todos eles, até por razões que precederam ou acompanharam a sua presença no «A Coluna Infame», conquistaram um lugar de destaque na esfera pública, ainda que percorrendo caminhos diversos. Pedro Lomba escreveria no Público, Pedro Mexia no Expresso, João Pereira Coutinho no Correio da Manhã e, com grande êxito, naFolha de S. Paulo. Todos tiveram presença marcante na blogosfera, mas afirmam agora as suas posições noutros lugares, como a imprensa escrita ou a televisão. E todos eles tinham e têm, a par da componente estritamente política, uma marcadíssima aproximação de natureza cultural, sendo patente a sua reverência por Nelson Rodrigues, Philip Larkin, Evelyn Waugh, a pop inglesa ou o cinema independente. A partir desse encontro, cada qual seguiu o seu caminho: Pedro Lomba e João Pereira Coutinho mais ligados às universidades, Pedro Mexia mais próximo dos meios literários do que académicos, todos rejeitaram a atracção do tribalismo e, ao invés, cultivaram um estrito individualismo, pessoal e intelectual."

Fonte: Malomil
Autor: António Araújo 

Último Parágrafo: Crime e Castigo


A estátua e o barro

"Quando temos uma estátua de barro na mão, estamos de facto a segurar dois objectos físicos: uma estátua e um pedaço de barro. Pois se partirmos a estátua, esta é destruída, mas o pedaço de barro continua a existir."

Fonte:  
Enigmas da Existência: Uma Visita Guiada à Metafísica, de Earl Conee e Theodore Sider

Singular e enigmático, a forma como isto se aplica a duas coisas profundamente antagónicas: o amor e o poder.